A entrada em vigor da nova atualização da NR-1, no mês de maio de 2026, representa um marco importante para o mundo corporativo brasileiro. A partir de agora, as empresas passam a ser oficialmente responsáveis por olhar para riscos psicossociais dentro do ambiente de trabalho, incluindo burnout, excesso de pressão, assédio moral e sexual, jornadas abusivas e ambientes emocionalmente inseguros.
Mas talvez a pergunta mais importante não seja “como cumprir a norma?”, e sim: por que demoramos tanto para enxergar que saúde mental, respeito e segurança emocional deveriam ser prioridades dentro das organizações?
Os números ajudam a entender a urgência. Em 2025, o Brasil registrou o maior número de afastamentos do trabalho por transtornos mentais da última década. Foram mais de meio milhão de pessoas afastadas por questões emocionais e psicológicas. Por trás dessas estatísticas, existem histórias silenciosas de sofrimento, medo, exaustão e adoecimento.
Durante anos, muitas organizações valorizaram apenas performance, metas e resultados técnicos, enquanto normalizavam lideranças agressivas, relações tóxicas e comportamentos abusivos mascarados de “brincadeiras”, “pressão por resultado” ou “essa pessoa tem um jeito forte de liderar”.
O problema é que culturas permissivas não adoecem apenas pessoas. Elas também comprometem inovação, engajamento, retenção de talentos, reputação e sustentabilidade do negócio.
Mais do que uma obrigação legal, a NR-1 surge como um convite, e também um alerta, para que empresas revejam profundamente sua cultura organizacional.
Transformação cultural e saúde mental começam pela liderança
Transformação cultural acontece quando comportamentos inadequados deixam de ser tolerados dentro das empresas.
Enquanto houver pessoas na liderança gritando em reuniões, expondo profissionais, utilizando o medo como ferramenta de gestão ou relativizando situações de assédio em nome da alta performance, continuaremos distantes de ambientes realmente saudáveis.
Uma das questões que mais me preocupam nas empresas é a naturalização de comportamentos inadequados. Quantas vezes ainda escutamos frases como “ele é excelente tecnicamente” para justificar atitudes agressivas, humilhações ou desrespeito? Quantas vezes comentários ofensivos ainda são tratados como “foi só uma brincadeira” ou “hoje tudo virou mimimi”?
Durante muito tempo, o ambiente corporativo valorizou mais o conhecimento técnico do que as habilidades humanas. Mas esse modelo de gestão não cabe mais nas empresas do presente, muito menos nas do futuro.
A cultura de uma organização é construída todos os dias pelas atitudes que a liderança reforça, permite ou silencia. Quando uma pessoa presencia comportamentos tóxicos e nada acontece, entende que aquilo é aceitável. Por outro lado, quando encontra uma liderança que pratica escuta ativa, respeito, acolhimento e diálogo, sente que existe segurança psicológica para trabalhar, contribuir e ser quem é.
Por isso, saúde mental exige liderança humanizada.
Empatia, inteligência emocional e capacidade de construir relações saudáveis deixaram de ser diferenciais e passaram a ser competências essenciais. Uma liderança emocionalmente consciente consegue perceber sinais de adoecimento antes que eles se agravem. Quantas vezes uma pessoa colaboradora começa a apresentar queda na performance, e ninguém pergunta como ela está se sentindo?
Não somos máquinas. O que acontece dentro da empresa impacta diretamente a vida das pessoas, e o que acontece na vida delas impacta diretamente suas entregas e seu desempenho.
Ser uma liderança empática, atenciosa e emocionalmente preparada deixou de ser um diferencial. Hoje, é uma necessidade para qualquer organização que queira construir ambientes emocionalmente seguros, sustentáveis e humanos.
O futuro das organizações será mais humano, ou não será sustentável
Empatia, escuta ativa, influência social responsável e gestão inclusiva de talentos deixaram de ser temas apenas “comportamentais” para se tornarem fatores estratégicos de negócio.
Empresas que desejam se adaptar à NR-1 de forma genuína precisam ir além da adequação jurídica e investir em transformação cultural.
Algumas etapas são fundamentais:
- Capacitar lideranças e equipes sobre respeito, conduta e segurança psicológica;
- Estruturar canais de denúncia seguros, confiáveis e acolhedores;
- Revisar cargas de trabalho, metas e jornadas abusivas;
- Implementar políticas claras de responsabilização;
- Criar espaços permanentes de escuta e diálogo;
- Desenvolver lideranças inclusivas e emocionalmente preparadas.
Além disso, é fundamental formar multiplicadores internos: pessoas capazes de atuar como agentes de transformação dentro da organização, ajudando a interromper comportamentos inadequados antes que se tornem práticas de assédio.
Outro ponto essencial é incluir o tema da saúde emocional nas conversas do dia a dia. Assim como existem diálogos diários sobre segurança física, também precisamos criar “EPIs emocionais”: espaços seguros onde as pessoas possam compartilhar percepções, desconfortos e sentimentos.
A boa notícia é que empresas que investem em ambientes emocionalmente seguros colhem resultados concretos: redução de turnover, menos afastamentos, aumento de produtividade, maior inovação e fortalecimento da reputação.
Mas existe um ganho ainda mais importante: devolver humanidade às relações de trabalho.
A NR-1 não deve ser vista apenas como uma nova exigência legal. Ela representa uma oportunidade histórica para repensarmos o modelo de liderança que construímos até aqui.
Porque empresas saudáveis não se constroem apenas com resultados, mas com relações saudáveis.
*Cris Kerr é CEO da CKZ Diversidade.



