A atualização da NR-1 exige que organizações cuidem da saúde psicológica de seus times com a mesma seriedade que tratam a segurança física, o que envolve mudança de mentalidade e comportamento
*Por Cris Kerr
Durante um treinamento com lideranças de uma grande empresa, ouvi uma pergunta que resumiu bem um dos principais desafios que estamos vivendo: “Quer dizer que agora a gente tem que se adaptar à geração Z?”. A conversa era sobre novas formas de trabalho, diversidade, inclusão, saúde mental e equilíbrio na vida pessoal e na empresa. “Não é sobre se adaptar à geração Z. É sobre se adaptar ao mundo que mudou, e a geração Z é uma das poucas que já está adaptada”, respondi.
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) do Ministério do Trabalho deixa isso cristalino. Pela primeira vez, a legislação brasileira está colocando a saúde mental no mesmo patamar que a segurança física no ambiente de trabalho. Assim como na década de 1970, na qual as empresas passaram a cuidar da segurança e foram obrigadas a oferecer capacetes, botas especiais e outros equipamentos de proteção individual (EPI) para mitigar o risco de acidentes, agora também têm o dever de proteger a saúde emocional das equipes. É o que chamo de EPI Emocional.
A nova regra entraria em vigor em 24 de maio de 2025, mas foi adiada em um ano. Neste intervalo, que terá caráter educativo e orientativo, o governo vai lançar um manual técnico com diretrizes práticas e criar um grupo de trabalho para acompanhar e orientar a aplicação da norma. O início da fiscalização está previsto para 26 de maio de 2026.
Apesar do novo cronograma, o recado está dado: as empresas terão o dever de criar mecanismos para identificar, avaliar e gerenciar os riscos psicossociais no ambiente profissional. Isso vai muito além de casos graves de assédio moral ou sexual, estamos falando de excesso de carga horária, cultura da competitividade tóxica, piadas e apelidos constrangedores que ferem, bem como ambientes excludentes e falta de segurança para ser quem se é. É uma mudança profunda de paradigma. O que em muitos ambientes ainda era considerado “normal”, agora será reconhecido como risco ocupacional.
Para várias empresas, essa mudança na legislação não terá impactos, já que a preocupação com a saúde mental já faz parte de suas culturas organizacionais. Para outras, a medida representa não só investimentos em adaptação, mas a necessidade de uma profunda mudança de mentalidade e comportamento.
Lembro do barulho que foi feito quando o cinto de segurança passou a ser obrigatório nos carros. Muita gente torceu o nariz, dizendo que era exagero e outras pessoas diziam que o objetivo era tirar a nossa liberdade. Hoje, é inconcebível entrar em um carro sem colocar o cinto.
Vejo um paralelo direto com o que vivemos agora em relação à saúde mental nas empresas. Até pouco tempo atrás, fazer piada com características pessoais de colegas, ignorar sinais de estresse ou isolar quem pensava diferente eram comportamentos vistos como “parte da cultura”. Mas, como disse naquele treinamento, o mundo mudou. O que antes era tolerado, hoje precisa ser prevenido, até que o cuidado se torne um reflexo natural do ambiente de trabalho.
É importante entender que não estamos falando apenas de sentimento. A falta de segurança emocional tem impacto direto no cotidiano do trabalho: uma pessoa que se sente constantemente humilhada, excluída ou sobrecarregada entra em modo de sobrevivência emocional. E nesse estado, ela pode sofrer acidentes de trabalho, mesmo usando todos os EPIs físicos corretamente. O cérebro de uma pessoa com estresse emocional crônico coloca em risco o lado racional, o foco e a capacidade de tomar decisões seguras. Portanto, cuidar da saúde mental é, também, prevenir acidentes.
Para as empresas que ainda não se adaptaram, existem alguns caminhos para começar:
• Aproveitar o período educativo: fazer um diagnóstico organizacional, medir afastamentos, mapear áreas com mais queixas, fazer censos qualitativos e qualitativos, realmente escutar as pessoas.
• Conscientizar as lideranças: oferecer treinamentos para que elas entendam o papel que têm na construção de ambientes seguros. Isso envolve criar espaços onde as pessoas possam falar, errar e aprender livremente.
• Convidar os homens para serem agentes de transformação: participando no dia 4 de agosto da 3ª Edição do único fórum no Brasil dedicado a promover um diálogo apenas com os homens. O evento reúne palestrantes homens que já são agentes de transformação, para que, em um espaço seguro, os participantes tirem as suas dúvidas e aprendam mais sobre como podem ser lideranças mais inclusivas.
• Inserir o tema nos DDS: o famoso Diálogo Diário de Segurança pode e deve incluir conversas sobre assédio, inclusão, segurança psicológica e felicidade no trabalho.
A atualização da NR-1 também é uma oportunidade para os times de RH assumirem um papel ainda mais estratégico. É hora de criar dashboards que monitorem indicadores de saúde mental, programas de formação contínua, espaços de escuta ativa. Não basta mais ter um código de conduta bonito na parede, é preciso colocar em prática essa cultura, dia após dia. Pois, empresas que se anteciparem vão colher ambientes mais saudáveis, engajamento verdadeiro e resultados sustentáveis. Contudo, as que resistirem, além de riscos jurídicos, vão perder o que hoje é mais valioso: a confiança das pessoas.
Então, se sua empresa já cuida da segurança com a entrega de EPIs, capacetes e botas de segurança, o que está fazendo para oferecer também o EPI Emocional?
*Cris Kerr é CEO da CKZ Diversidade.



